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Chama a atenção o fato de que as autoridades eclesiásticas falem tanto de algumas coisas, enquanto sobre outras questões muito importantes para as pessoas, como é o caso da crise econômica, não digam nenhuma palavra.
A opinião é de José María Castillo, teólogo espanhol, publicado na página eletrônica Adista, 27-10-2008. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Naturalmente, é arriscado afirmar que o papa, os cardeais e os bispos, tantos como são, não tenham dito nada com respeito a um tema do qual o mundo inteiro fala com preocupação e angústia. Não há dúvidas de que o papa e os bispos tenham falado a respeito disso. Mas o fato é que a opinião pública sabe perfeitamente aquilo que a hierarquia pensa e diz a respeito do aborto, da eutanásia, do divórcio, da homossexualidade, do uso de contraceptivos, do ensino da educação à cidadania (matéria introduzida por Zapatero e contestada pelos bispos espanhóis) etc, enquanto as pessoas não têm nenhuma idéia do que os bispos pensam a respeito da crise do sistema financeiro, da quebra dos bancos, do aumento dos preços, do desemprego, dos empréstimos subprime, da ganância que, segundo o Comissário dos Assuntos Econômicos da União Européia, Joaquin Almunia, está na raiz dessa crise tão profunda e obscura e de tal gravidade.
É verdade as questões de ordem econômica pressupõe conhecimentos técnicos que não estão ao alcance de todos, nem dos bispos que, supõe-se, receberam a formação e a preparação necessárias para dizer, como pastores, aquilo que os fiéis devem pensar com relação aos seus problemas de vida e de consciência. Estamos de acordo sobre o fato de que são os economistas que falam de economia. Mas, se esse critério é correto, deve-se dizer com a mesma razão que devem ser os biólogos que devem falar de biologia. Por que os bispos falam com tanta certeza sobre questões como as células-tronco, o término da vida, os experimentos científicos em embriões ou a fecundação in vitro, se a maior parte dos bispos sabe menos ainda de biologia de quanto pode saber de economia?
Sinceramente, suspeito que o silêncio dos bispos sobre temas econômicos não é devido à ignorância, mas a outras motivações mais obscuras. Por que digo isso? Há poucos dias, o presidente do Parlamento Europeu, Hans-Gert Poettering, dizia sem jogos de palavras: “Não se pode dar 700 bilhões (de dólares) aos bancos e esquecer-se da fome”. Porque essa incrível quantidade de dinheiro está reservada aos ricos, para que se sintam mais seguros e tranqüilos na sua condição privilegiada, enquanto, como bem sabemos, agora mesmo existem 800 milhões de seres humanos forçados a sobreviver com menos de um dólar por dia, isto é, viver em condições desumanas, expostos a uma morte próxima e assustadora.
Bem, o escândalo é que os políticos denunciam essa atrocidade da “economia canalha” (Loretta Napoleoni), enquanto aqueles que se apresentam como os representantes oficiais de Cristo na terra não levantam a própria voz contra semelhante vergonha. Naturalmente, eu não tenho soluções para a situação crítica que estamos vivendo, nem posso ser eu quem ofereça soluções. A única coisa que posso (e devo) dizer é que na Igreja abundam os funcionários e faltam os profetas. E tenho a impressão que, neste momento, para fugir da confusão em que estamos, mais importante do que a consciência dos economistas é a audácia dos profetas capaz de dizer onde se situa exatamente a cobiça que, como já disse, está na raiz do desastre que estamos sofrendo.
Todos sabemos que a Igreja denuncia a injustiça. O problema, porém, é que ela o faz utilizando uma linguagem genérica como a do presidente Bush quando falava de “justiça infinita”. Ninguém duvida das boas intenções do papa. E nem da sua grande personalidade e do seu prestígio mundial. Mas o problema é que o papa é o chefe supremo de uma instituição presente no mundo inteiro e se esforça por manter as melhores relações possíveis com os responsáveis da economia e da política de cada país. Bem, do momento em que a Igreja escolheu funcionar assim, é impossível para ela a missão profética que deve exercitar em defesa dos pobres e das pessoas mais mal-tratadas pela vida e pelos poderes deste mundo.
Quem lê com atenção os evangelhos sabe que Jesus não se comportou, frente às autoridades e aos ricos do seu tempo, como as hierarquias eclesiásticas se comportam hoje diante dos responsáveis dessa economia canalha que está levando o mundo à ruína. É evidente que as preocupações de Jesus eram muito diversas das da Igreja de hoje. Deve-se produzir uma catástrofe econômica como aquela que estamos vivendo para nos darmos conta de aonde vão os reais interesses dos “homens de religião”. Eles utilizam a linguagem da justiça e da solidariedade, que é aquilo que serve para o nosso tempo, mas não se arriscam a levantar a voz quando temem que os interesses da religião possam ser postos em perigo.
Estando assim as coisas, a conclusão é clara: a instituição religiosa está mais preocupada em assegurar a estabilidade e o bom funcionamento da religião do que se expor (com tudo aquilo que conseguir) com relação àqueles que mais sofrem nesta vida. E se essa é a conclusão lógica, o resultado é evidente: os ricos se sentem seguros, os pobres ficam imersos na sua miséria, e a religião, com os seus templos e os seus funcionários, permanece a mesma, pelo que ela se torna cada dia mais velha e sem força.
Fonte: Instituto Humanistas Unisinos.
No próximo 29 de outubro, a Assembléia Geral da ONU, após ouvir o informe apresentado pelo secretário-geral, Ban Ki Moon, votará o projeto de Cuba visando à suspensão do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto à ilha do Caribe pelo governo dos EUA desde 1959.
Será a 17ª vez que a ONU tratará deste tema. Em 2007, dos 192 países-membros das Nações Unidas, 184 votaram a favor do projeto que pedia a suspensão. Infelizmente, suas resoluções não têm caráter obrigatório, exceto as do Conselho de Segurança.
O fato de a maioria dos países condenarem, por 16 vezes, o bloqueio representa um gesto de solidariedade à Ilha e uma derrota moral para a Casa Branca, cuja prepotência se evidencia por não ter a menor consideração para o que pensa a comunidade internacional, que repudia a hostilidade usamericana.
O bloqueio é o principal obstáculo ao desenvolvimento de Cuba. Ano passado, representou, para o país, prejuízo de US$ 3,775 bilhões. Ao longo dos 50 anos de Revolução, calcula-se que o total do prejuízo chegue a US$ 224,6 bilhões, levando em conta a desvalorização do dólar e suas flutuações no decorrer do tempo.
O bloqueio é um polvo com tentáculos extraterritoriais, violando o direito internacional, em especial a Convenção de Genebra, que o qualifica de genocídio. Empresas, bancos e cidadãos que mantêm relações econômicas, comerciais ou financeiras com Cuba sofrem perseguições. A exemplo do que fez a China durante as Olimpíadas, também o governo usamericano bloqueia sites da Internet relacionados com Cuba.
A muito custo o governo cubano tem conseguido abrir pequenas brechas no bloqueio, como ao comprar alimentos dos EUA. As empresas vendedoras enfrentam gigantesca burocracia, sobretudo porque a comercialização tem de passar pela intermediação de um terceiro país, já que o bloqueio proíbe relações diretas entre EUA e Cuba. O comprador é obrigado a pagar adiantado e não pode vender seus produtos aos usamericanos; os navios retornam vazios aos portos de origem.
Os recentes furacões Gustav e Ike provocaram muitos danos à Ilha. Áreas agrícolas foram devastadas, 444 mil moradias afetadas, das quais 67 mil totalmente destruídas. Com a alta dos preços dos alimentos no mercado internacional, Cuba só não está com a corda no pescoço graças à solidariedade internacional, inclusive da União Européia e do Brasil.
O governo cubano solicitou à Casa Branca uma trégua no bloqueio nos próximos seis meses, por razões humanitárias. Até agora, Bush mantém completo silêncio. Contudo, a máquina publicitária da Casa Branca trata de camuflar a omissão presidencial com uma série de mentiras, como a oferta de US$ 5 milhões aos cubanos vítimas dos furacões.
Ora, o que representa essa ninharia diante dos US$ 46 milhões que a Usaid recebeu este ano para financiar grupos mercenários dedicados ao terrorismo anticubano? E outros US$ 40 milhões foram liberados para manter as transmissões de rádio e TV contra o regime de Cuba.
Apesar de o bloqueio causar mais danos que todos os furacões que já afetaram Cuba, a nação resiste e, agora, se mobiliza em amplos mutirões para consertar os estragos causados pela natureza e aprimorar a produção agrícola, graças às recentes medidas que facilitam aos camponeses acesso às terras onde, outrora, se cultivava cana-de-açúcar. Além de ter no Estado um comprador seguro, os agricultores cubanos poderão vender diretamente ao consumidor.
Sem olhar para o próprio umbigo, Cuba reitera sua solidariedade internacional e envia médicos às vítimas dos furacões no Haiti, e mantêm médicos e professores em mais de 70 países, a maioria pobres.
A história é uma velha senhora que nos surpreende a cada dia: quem imaginaria, há um ano, que o socialismo cubano veria a crise financeira de Wall Street, e o Estado mais capitalista do mundo contradizer todos os seus discursos e intervir no mercado para tentar salvar bancos e empresas? Como fica o dogma da imaculada concepção de que fora do mercado não há salvação?
PS: Contribuições para compra de alimentos e remédios a serem remetidos às vítimas dos furacões em Cuba podem ser remetidas a: Associação Ação Solidária Madre Cristina, Banco do Brasil 4328-1, Conta 6654-0.
Frei Betto é escritor, autor de “A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Rocco), entre outros livros.
Frei Betto
Por Inma Álvarez
Os bispos franceses membros do Conselho para questões familiares e sociais publicaram no dia 8 de outubro uma reflexão sobre a crise financeira mundial, uma crise que deve, segundo os prelados, levar a uma revisão das atuais formas de buscar o benefício econômico.
Ainda que os mecanismos financeiros sejam necessários para prover as economias de recursos, a crise revelou as conseqüências negativas de lógicas financeiras que, levadas ao extremo, estão desconectadas da economia e se colocam somente ao serviço de um benefício imediato.
«Nossas sociedades estão quebradas. E, como sempre, nestes casos, os mais pobres são as primeiras e mais inocentes vítimas», acrescentam.
Quando as finanças pretendem ser um fim em si mesmas e só estão animadas pelo desejo de benefício, perdem a cabeça – afirmam os bispos –, mas quando as preocupações dos homens, de cada homem e de todos os homens se convertem em prioridade, a confiança renasce.
Para superar a crise, advertem os prelados, as medidas não podem encaminhar-se somente à «manutenção de um sistema financeiro que revelou suas fraquezas e suas conseqüências humanas».
É necessária a cooperação entre os Estados, o estabelecimento de instituições de organização financeira e uma reorientação das economias ao serviço das pessoas.
Os bispos exigem uma reflexão ética e um compromisso, que revise as práticas especulativas a curto prazo, assim como uma revisão dos sistemas de remuneração e gratificação dos dirigentes das instituições financeiras, especialmente por sua contribuição na crise, buscando o benefício de forma inconsiderada.
Exigem também maior transparência, assim como uma reorientação das finanças ao serviço da economia produtiva e adequada às exigências ambientais.
Fonte: Zenit.
Mt 21, 33-43
“O Reino de Deus será entregue a uma nação que produzirá seus frutos”
A parábola de hoje é a segunda numa série de três, referentes ao julgamento final de Deus sobre o seu povo (antes houve a parábola dos dois irmãos e virá ainda a da festa de casamento). Com certeza, a redação atual é resultado de uma longa história de transmissão oral e redação. Na boca de Jesus, a história visava a sorte da vinha (v. 41); a tradição pré-sinótica concentrou a atenção na sorte do Filho, acrescentando a citação de Sl 118 e as alusões escriturísticas (vv. 42-44); finalmente, Mateus deixa claro que o advento do novo povo (v. 41) está ligado ao destino d’Aquele que fala e que deve ser condenado e morto, para depois ressuscitar (cf. notas da Bíblia TEB).
Na sua forma atual, a parábola é uma alegoria da História da Salvação. “Os mensageiros” são os profetas que foram matados pelo povo de Israel, culminando com Jesus, como o Filho. “O Reino” provavelmente se refere à promessa da bênção em plenitude, dos últimos tempos. “O Povo” se refere à Igreja; no caso de Mateus, composta principalmente de judeu-cristãos, mas também de gentios convertidos, que juntos formam o Novo Povo de Deus, o verdadeiro Israel. Essa conclusão de v. 43 é a principal contribuição de Mateus à interpretação da parábola, e é mais suave do que a própria parábola, pois os maus vinhateiros não serão destruídos, mas perderão a promessa.
Como o Evangelho de Mateus foi escrito num contexto de polêmica entre a sua comunidade e o judaísmo formativo do fim do primeiro século, queria ensinar para a sua comunidade que a promessa antiga feita ao Povo de Deus foi retirada das autoridades farisaicas e das suas comunidades, e foi dada à comunidade da Igreja. Mas, isso não dava às comunidades motivo para comodismo. Como o povo original perdeu a promessa porque “não deu fruto”, também a Igreja não a possui de modo incondicional. Também as comunidades cristãs têm que “dar fruto” de justiça, fraternidade, solidariedade, e partilha. A História da Salvação nos mostra que Deus não se deixa manipular, nem permite que qualquer comunidade ou religião se torne “dona” d’Ele, mas que o seu verdadeiro povo é aquele que se dedica à construção dos valores do Reino de Deus. O texto convida a um sério exame e revisão das nossas práticas e estruturas eclesiais e eclesiásticas, para que a nossa Igreja cristã não chegue a merecer o destino dos vinhateiros, que, por não terem correspondido com a Aliança, viram a promessa retirada deles e dada a um outro povo “que produzirá os seus frutos” (v. 43).
Fonte: Pe. Tomaz Hughes, SVD
Em Juazeiro do Norte, padre Cícero é nome de rua, de posto de gasolina, de loja. Todos os anos, a cidade recebe gente de todos os cantos, mais de um milhão de fiéis querendo agradecer por um milagre ou fazer um pedido. Um fenômeno religioso que desperta o interesse de muitos pesquisadores, como a irmã Ana Tereza Guimarães, doutora em Psicologia da Religião e uma das palestrantes do último dia do Seminário Estadual em Ciências da Religião, encerrado ontem.
Em sua palestra, irmã Tereza lembrou que padre Cícero não precisa ser canonizado para que os romeiros o considerem santo. “Está no coração deles. E é isso que importa”, defendeu a pesquisadora de 73 anos, que há 30 mora em Juazeiro do Norte. Ela explica que o processo de reabilitação do “santo popular” - que foi afastado da Igreja depois de um de seus supostos milagres - ainda está em estudo pela Santa Sé. Somente depois de reabilitado, seria possível iniciar o processo de beatificação, um dos passos para alguém ser declarado, oficialmente, santo.
A pesquisadora também destacou que o nordestino se identifica com o martírio por que passou “padim Ciço”. “Os sofrimentos dele também são os nossos. Essa identificação ajudou a criar uma memória coletiva em torno do ’santo popular’, que foi sendo passada de pai pra filho.”Ela explicou ainda que, durante muito tempo, as pesquisas sobre o religioso eram pouco objetivas, sendo radicalmente contra ou totalmente a favor dele.
Carisma
“Acho injusto chamar padre Cícero de coronel. Ele tinha uma personalidade forte, um carisma. Todos o respeitavam, incluindo os ricos. Mas ele recebia todo mundo, ouvia as necessidades do povo, ajudava os pobres”, comentou a pesquisadora. Em sua tese de doutorado - em que 300 romeiros e moradores de Juazeiro foram entrevistados - ela chegou à conclusão de que todos reconhecem padre Cícero como santo, patriarca (fundador da cidade) e padrinho, esse último, no sentido de conselheiro, a quem se pode recorrer sempre.
Durante três dias, o seminário, promovido pelo Instituto de Ciências Religiosas (Icre), reuniu pesquisadores, estudantes e católicos no antigo Seminário da Prainha. De acordo com o organizador do evento, Lucho Torres Bedoya, o objetivo foi resgatar a importância dos romeiros, de padre Cícero e da beata Maria de Araújo, uma seguidora do “santo popular” que, ao comungar, teria sangrado pela boca várias vezes.
SAIBA MAIS SOBRE PADRE CÍCERO
Nascido no Crato, padre Cícero é o maior benfeitor de Juazeiro do Norte e a figura mais importante de sua história. Foi ele quem levou para Juazeiro as Ordens dos Salesianos e dos Capuchinhos; construiu capelas e igrejas; incentivou a fundação do primeiro jornal local (O Rebate); dinamizou o artesanato como fonte de renda; estimulou a expansão da agricultura; contribuiu para instalação de escolas e socorreu a população durante as secas e epidemias. A Santa Sé o afastou de suas funções após o milagre da hóstia. Consta que, ao comungar, a beata Maria de Araújo, sua seguidora, sangrou pela boca várias vezes. O fato não foi aceito pela Igreja Católica. Depois de sua morte em 20 de julho de 1934, aos 90 anos, aumentaram as romarias a Juazeiro do Norte. Atualmente, a cidade chega a receber dois milhões de romeiros por ano, que vão pagar promessas ou pedir graças ao “santo popular do Nordeste”. Em 2006, foi entregue ao Vaticano um estudo sobre a vida de Cícero Romão Batista. O processo de reabilitação ainda está em análise.
Fonte: O Povo - Ceará.
