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João 6, 37-44
A celebração de hoje deve ser vista em relação com a de ontem, dia 1 de novembro - a Festa de Todos os Santos. É a grande celebração da “Comunhão dos Santos” - nós, a Igreja peregrina, ontem comemoramos a Igreja já vivendo a plenitude de vida com Deus; e hoje comemoramos a Igreja ainda em processo de purificação (a palavra “purgatório” vem do termo latino que significa “purificar” e não “sofrer”). No fundo, celebramos o imenso amor de Deus para conosco, todos participantes daquilo que celebramos todos os domingos no Credo quando declaramos que acreditamos, “Na Comunhão dos Santos, na Ressurreição da Carne e na Vida eterna”.
Embora para muitas pessoas a celebração de hoje traga conotações de tristeza, pois suscita lembranças e saudades dos seus entes queridos já falecidos, realmente é uma celebração de esperança e confiança na bondade, no perdão e no amor de Deus.
O texto escolhido para hoje, ligado às declarações de Jesus sobre o Pão da Vida, é extremamente alentador e animador. Explicita com todas as letras que a vontade do Pai é de que Jesus ressuscite todos/as que lhe foram confiados pelo Pai, no último dia. Longe de nos apresentar o Pai como um juiz implacável, Jesus declara que a vontade de Pai é que “toda pessoa que vê o Filho e n’Ele acredita, tenha a vida eterna” e que Ele “o ressuscite no último dia” (v 40).
Naturalmente, o texto foi dirigido em primeiro lugar à comunidade joanina, e por isso enfatiza a ressurreição de todos/as que receberam de Deus o dom da fé (vêem Jesus e n’Ele acreditam); mas, fica clara a vontade do Pai de salvar para a vida eterna todas as pessoas que procuram viver a verdade. O que perpassa todo este discurso de Jesus é a confirmação da vontade salvífica de Deus, a misericórdia de Deus e a manifestação desta compaixão na pessoa e obra de Jesus de Nazaré.
É mais do que natural que hoje a gente sinta saudade dos falecidos - especialmente dos que partiram deste mundo há pouco tempo. Mas a celebração deve nos animar e encorajar, pois desde ontem a Igreja toda está em festa de celebração da grandeza do amor de Deus - nós ainda em peregrinação na terra, os falecidos no processo de serem purificados pelo amor de Deus e os que já estão na plenitude da vida, pois somos todos recipientes da bondade de Deus, através de Jesus que veio “para que todos tenham a vida e a vida em plenitude” (Jo 10, 10).
Fonte: Pe. Tomaz Hughes, SVD
Publicamos o comentário do Pe. Raniero Cantalamessa, OFM Cap., pregador da Casa Pontifícia, por ocasião da solenidade de todos os santos e a comemoração dos fiéis defuntos.
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XXXI Domingo
Sabedoria 3, 1-9; Apocalipse 21, 1-5.6-7; Mateus 5, 1-12
A festa de todos os santos e a comemoração dos fiéis defuntos têm algo em comum e por este motivo foram colocadas uma logo após a outra. Inclusive a passagem evangélica é a mesma, a página das bem-aventuranças. Ambas as celebrações nos falam do mais além. Se não crêssemos em uma vida depois da morte, não valeria a pena celebrar a festa dos santos e menos ainda visitar o cemitério. A quem visitaríamos ou por que acenderíamos uma vela ou levaríamos uma flor?
Portanto, tudo neste dia nos convida a uma sábia reflexão: “Ensina-nos a contar nossos dias – diz um salmo – e alcançaremos a sabedoria do coração”. “Vivemos como as folhas da árvore no outono” (G. Ungaretti). A árvore na primavera volta a florescer, mas com outras folhas; o mundo continuará depois de nós, mas com outros habitantes. As folhas não têm uma segunda vida, apodrecem onde caem. O mesmo acontece a nós? Aqui termina a analogia. Jesus prometeu: “Eu sou a ressurreição e a vida, quem vive e crê em mim, ainda que morra viverá”. É o grande desafio da fé, não só dos cristãos, mas também dos judeus e dos muçulmanos, de todos os que crêem em um Deus pessoal.
Quem viu o filme “Doutor Jivago” recordará a famosa canção de Lara, a trilha sonora. Na versão italiana diz: “Não sei qual é, mas há um lugar do qual nunca regressaremos…”. A canção mostra o sentido da famosa novela de Psternac, na qual se baseia o filme: dois namorados que se encontram, se buscam, mas a quem o destino (encontramo-nos na tumultuosa época da revolução bolchevique) separa cruelmente, até a cena final, na qual seus caminhos voltam a cruzar-se, mas sem reconhecer-se.
Cada vez que escuto as notas dessa canção, minha fé me leva quase a gritar em meu interior: sim, há um lugar do qual nunca regressamos e do qual não queremos regressar. Jesus foi prepará-lo para nós, nos abriu a vida com sua ressurreição e nos indicou o caminho para segui-lo com a passagem das bem-aventuranças. Um lugar no qual o tempo se deterá para dar passagem à eternidade; onde o amor será pleno e total. Não só o amor de Deus e por Deus, mas também todo amor honesto e santo vivido na terra.
A fé não exime os crentes da angústia de ter de morrer, mas a alivia com a esperança. O prefácio da missa de amanhã diz: “aos que a certeza da morte entristece, a promessa da imortalidade consola”. Neste sentido, há um testemunho comovente que também se encontra na Rússia. Em 1972, em uma revista clandestina se publicou uma oração encontrada no bolso da jaqueta do soldado Aleksander Zacepa, composta pouco antes da batalha na qual perdeu a vida na 2ª Guerra Mundial. Diz assim:
Escuta, ó Deus! Em minha vida não falei nem uma só vez contigo, mas hoje tenho vontade de fazer festa. Desde pequeno me disseram sempre que Tu não existes… E eu, como um idiota, acreditei.
Nunca contemplei tuas obras, mas esta noite vi desde a cratera de uma granada o céu cheio de estrelas e fiquei fascinado por seu resplendor. Nesse instante compreendi que terrível é o engano… Não sei, ó Deus, se me darás tua mão, mas te digo que Tu me entendes…
Não é algo estranho que em meio a um espantoso inferno a luz tenha me aparecido e eu tenha descoberto a ti?
Não tenho nada mais para dizer. Sinto-me feliz, pois te conheci. À meia-noite temos de atacar, mas não tenho medo, Tu nos vês. Deram o sinal! Tenho que ir. Que bem estava contigo! Quero te dizer, e Tu o sabes, que a batalha será dura: talvez esta noite vá bater à tua porta. E se até agora não fui teu amigo, quando eu chegar, Tu me deixarás entrar?
Mas, o que acontece comigo? Estou chorando? Meu Deus, olha o que me aconteceu. Só agora comecei a ver com clareza… Meu Deus, vou-me… será difícil regressar. Que estranho, agora a morte não me dá medo.
[Tradução: Élison Santos. Revisão: Aline Banchieri]
Fonte: Zenit.
Domingo do Tempo Comum
Êxodo 22, 20-26; 1 Tessalonicenses 1, 5c-10; Mateus 22, 34-40
Amarás o teu próximo como a ti mesmo
«Amarás o teu próximo como a ti mesmo». Acrescentando as palavras «como a ti mesmo», Jesus nos pôs diante um espelho ao qual não podemos mentir: deu-nos uma medida infalível para descobrir se amamos ou não o próximo. Sabemos muito bem, em cada circunstância, o que significa amar a nós mesmos e o que queríamos que os demais fizessem por nós. Jesus não diz, note-se bem: «O que o outro te fizer, faze tu a ele». Isso seria a lei do Talião: «Olho por olho, dente por dente». Ele diz: o que tu queres que o outro te faça, faze tu a ele (cf. Mt 7, 12), que é muito diferente.
Jesus considerava o amor ao próximo como «seu mandamento», no qual se resume toda a Lei. «Este é o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como eu vos amei» (Jo 15, 12). Muitos identificam o cristianismo inteiro com o preceito do amor ao próximo, e não estão totalmente desencaminhados. Mas temos de tentar ir um pouco mais além da superfície das coisas. Quando se fala do amor ao próximo, o pensamento se dirige imediatamente às «obras» de caridade, às coisas que é preciso fazer pelo próximo: dar-lhe de comer, de beber, de vestir; ou seja, ajudar o próximo. Mas isso é um efeito do amor, não é ainda o amor. Antes da beneficência vem a benevolência; antes de fazer o bem, vem o querer.
A caridade deve ser «sem fingimentos», ou seja, sincera (literalmente, «sem hipocrisia») (Rm 12, 9); deve-se amar «verdadeiramente, de coração» (1 Pe 1, 22). Pode-se de fato fazer caridade ou dar esmola por muitos motivos que não têm nada a ver com o amor: por ficar bem, por parecer benfeitores, para ganhar o paraíso, inclusive por remorso de consciência. Muita caridade que fazemos aos países do terceiro mundo não está ditada pelo amor, mas pelo remorso. Percebemos a diferença escandalosa que existe entre nós e eles e nos sentimos em parte responsáveis por sua miséria. Pode-se ter pouca caridade também «fazendo caridade»!
Está claro que seria um erro fatal contrapor o amor do coração à caridade dos fatos ou refugiar-se nas boas disposições interiores para com os demais, para encontrar uma desculpa para a própria falta de caridade atual e concreta. Se você encontra um pobre faminto e tremendo de frio, dizia São Tiago, «de que serve dizer «Pobre, vá, esquente-se, coma algo», mas não lhe dá nada do que precisa?». « Filhos meus, acrescenta o evangelista João, não amemos de palavra nem de boca, mas com obras e segundo a verdade» (1 Jo 3, 18). Não se trata, portanto, de subestimar as obras externas de caridade, mas de fazer que estas tenham seu fundamento em um genuíno sentimento de amor e benevolência.
Esta caridade do coração ou interior é a caridade que todos e sempre podemos exercer, é universal. Não é uma caridade que alguns – os ricos e saudáveis – podem somente dar e outros – os pobres e enfermos – podem apenas receber. Todos nós podemos fazê-la e recebê-la. Também é muito concreta. Trata-se de começar a olhar com novos olhos as situações e as pessoas com as que vivemos. Com que olhos? É simples: os olhos com que quisermos que Deus nos olhe. Olhos de desculpa, de benevolência, de compreensão, de perdão…
Quando isso acontece, todas as relações mudam. Caem, como por milagre, todos os motivos de prevenção e hostilidade que nos impediam de amar certa pessoa, e esta começa a parecer o que é realmente: uma pobre criatura humana que sofre por suas fraquezas e limites, como você, como todos. É como se a máscara que todos os homens e as coisas têm caíssem, e a pessoa aparecesse como é na realidade.
Mt 22, 34-40
“Desses dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas”
Hoje, temos mais uma das controvérsias do Capítulo 22, esta vez com os fariseus. De novo, a pergunta feita por um legista não é para descobrir a verdade, mas para armar uma cilada para Jesus - o verbo traduzido aqui como “para O pôr à prova” é o mesmo usado em v. 22, 8 (“armar cilada”). O que seria o maior mandamento era discutido entre as diversas escolas rabínicas da época - para alguns o maior era o amor a Deus, para a maioria era a observância do sábado. O Antigo Testamento enfatiza a importância de amar a Deus e de amar o próximo (Lv 19, 18 e Dt 6, 5). A originalidade de Jesus está no fato de Ele assemelhar um ao outro, dando-lhes igual importância e, sobretudo, na simplificação e concentração da Lei (que tinha 613 mandamentos) nesses dois elementos. A colocação de Jesus exige uma forma correta de amor próprio - não de egoísmo, mas de auto-respeito. A ligação íntima dos dois mandamentos não é atestada antes de Jesus e marca um avanço moral importante.
Mais uma vez, Jesus desloca o eixo da questão, como fez domingo passado na passagem sobre o imposto a César. Esta vez Ele se recusa a entrar em discussões fúteis sobre leis, para enfatizar o papel central do amor - tanto a Deus como ao próximo.
É importante frisar que o “amor” de que Jesus fala não é um mero sentimento ou emoção, como muitas vezes é na linguagem de hoje. O amor é uma atitude de vida, uma fidelidade à Aliança com Deus, uma vivência solidária com os irmãos e irmãs. Obviamente, não é possível simpatizar-nos com cada pessoa, nem gostar de cada pessoa. Mas, é possível superar antipatias e aversões, na caminhada da construção do projeto de Deus para o nosso mundo.
A ligação essencial entre o amor a Deus e ao próximo torna-se muito urgente hoje em dia, quando se dá tanto espaço a pregações intimistas e formas alienantes de “espiritualidade”, que muitas vezes não passam de uma busca disfarçada de auto-realização, mas que jamais levam a um compromisso com a transformação da nossa realidade. A frase de Jesus desautoriza qualquer pregação religiosa que separa o amor a Deus do amor ao próximo - um amor não somente afetivo (que talvez muitas vezes nem possa ser), mas, efetivo - concretizando de maneira prática a solidariedade e a justiça.
O nosso texto nos adverte contra qualquer tendência alienante ou legalista - os mandamentos não são para serem discutidos, mas vividos, no amor e compromisso. Para os rabinos do tempo de Jesus, o mundo todo dependia da Lei, do serviço no Templo e dos atos de bondade. Mateus fez com que a própria Lei dependa dos atos de amor solidário. Esse avanço feito por Jesus desafia a todos nós para que não caiamos na tentação perene de separar os dois aspectos do amor - não é possível amar a Deus sem que amemos o irmão, e o verdadeiro amor ao próximo brota do nosso amor a Deus.
Fonte: Pe. Tomaz Hughes, SVD
Mt 22, 1-15
“Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”
Com o texto de hoje, entramos num bloco de quatro unidades tratando de diversas controvérsias com lideranças judaicas diferentes - os fariseus, os herodianos, os saduceus. A discussão de hoje talvez seja a mais conhecida, mas muitas vezes tem sido interpretada de maneira errada, projetando sobre Jesus os nossos preconceitos políticas e sociais`.
É necessário entender que não se tratava de uma pergunta sincera feita a Jesus, mas de uma cilada. Pois, quem a faz são membros de dois grupos politicamente opostos e antagônicos - os herodianos, “pelegos” da dominação romana e os fariseus, muitos dos quais olhavam os herodianos como impuros, pela sua colaboração com o poder estrangeiro. Se Jesus respondesse que é lícito pagar o imposto, correria o risco de ser apresentado pelos nacionalistas como um opressor do povo. Se Ele negasse, poderia ser denunciado pelos herodianos como subversivo político. É uma situação semelhante à da pergunta de João 8, 1-11 (a mulher adúltera), onde qualquer resposta deixaria Jesus em maus lençóis. Como naquela ocasião, Jesus se mostra verdadeiro mestre, escapando da cilada, e por cima, dando um ensinamento importante.
Primeiro, Ele deixa claro que Ele entende a jogada: “Hipócritas, por que me armais uma cilada?” Coloca os seus interlocutores contra a parede, pedindo uma moeda do imposto, e perguntando: “De quem são esta efígie e esta inscrição?” A inscrição seria “Tibério César Filho do Divino Augusto, Sumo Pontífice” - mostrando as pretensões do Império Romano à divinização. Com a resposta: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, Jesus joga para os seus ouvintes a pergunta essencial: o que pertence a César, e o que pertence a Deus? A Deus pertence a divindade, não ao Império Romano nem a César. Assim, ele evita confirmar o projeto nacionalista violento de muitos judeus da sua época, mas condena também qualquer projeto que divinizasse o poder civil. Uma advertência muito atual para os nossos dias, quando o único poder imperial hegemônico, (muito semelhante à situação do Império Romano do tempo de Jesus) reivindica para si o poder de impor as suas decisões sobre todas as nações, taxando quem discorda da sua dominação ideológico, econômico e militar de “terrorista”. O poder civil existe para cuidar do povo - que é de Deus - e não para explorá-lo. Jesus assim nega as aspirações imperialistas e, evitando uma resposta direta à pergunta, enfatiza e relativiza todo e qualquer poder, pois o verdadeiro poder só pertence a Deus.
Nos nossos dias, ainda existem poderes com as mesmas aspirações dos romanos. Embora não digam abertamente, os arautos do neo-liberalismo desenfreado divinizam um sistema que só visa o lucro e a ganância e explora o povo sofrido. As palavras de Jesus nos lembram que nenhum cristão pode compactuar com qualquer sistema - seja político, econômico ou religioso - que atribui a si o que pertence a Deus. O texto de forma alguma justifica um dualismo entre o espiritual (de Deus) e o material (de César). Pelo contrário, mostra que o poder político, econômico e religioso deve estar a serviço do bem comum, pois, se não, está roubando o que é de Deus - o seu povo. Não se pode entregar às garras de um poder opressor, seja ele estrangeiro ou nacional, o que pertence ao Pai. O poder é legítimo quando está a serviço da vida e do bem-estar comum, e não de uns poucos privilegiados. “Dar a Deus o que é de Deus” não se resume em rituais religiosos, mas na construção de uma sociedade de solidariedade, justiça e fraternidade, onde todos possam “ter a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). Na medida em que lutamos por esse objetivo, estaremos dando “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Fonte: Pe. Tomaz Hughes, SVD
