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Fala Francisco Fontana Tormo, presidente de Amizade Judaico-Cristã
Por Inmaculada Alvarez
VALÊNCIA, terça-feira, 12 de fevereiro de 2008.- Francisco Fontana Tormo, médico neurocirurgião, católico e presidente da associação «Amizade Judaico-Cristã» de Valência, recebeu no mês de novembro passado, na Knesset (Parlamento de Israel), o prêmio «Samuel Toledano», por sua contribuição ao diálogo entre judeus e cristãos.
Esta associação está inspirada, ainda que seja independente juridicamente, no Centro de Estudos Judaico-Cristãos de Madri e no trabalho da Congregação Nossa Senhora de Sião, na Espanha. A Congregação foi fundada em 1843 por Tedoro Ratisbone, para dar testemunho, na Igreja e no mundo, da fidelidade de Deus a seu amor pelo povo judeu e para propiciar o diálogo mutuo.
–Em que consiste este reconhecimento e o que supôs para você?
–Francisco Fontana: O Prêmio «Samuel Toledano» é um prêmio instituído pela família Toledano em memória de Samuel Toledano, líder da Comunidade Judaica de Madri, que faleceu em 1996. O prêmio se outorga anualmente a dois pesquisadores, um israelense e outro espanhol, por uma obra de pesquisa sobre o passado dos judeus da Espanha – Sefarad –, pelas relações entre a Espanha e Israel e pelas relações entre judeus, cristãos e muçulmanos.
Ocasionalmente se entrega um diploma de reconhecimento por trabalho, não de pesquisa, mas sim de atividade, no contexto destes campos. Neste caso, foi-me outorgado um Diploma por minhas atividades para promover o conhecimento mútuo entre Judaísmo e Cristianismo e manter boas relações entre ambas religiões, como presidente e fundador da Amizade Judaico-Cristã de Valência.
Para mim supôs uma grande alegria pelo que há de reconhecimento por parte judaica das relações judaico-cristãs e, por outra parte, uma grande emoção, pois me foi entregue por Dom Isaac Navon, 5º Presidente do Estado de Israel, na própria Knesset, o Parlamento de Israel, e também foi uma oportunidade para viajar novamente a Israel.
–Quais são as bases nas quais se apóia o diálogo entre judeus e cristãos?
–Francisco Fontana: As bases são comuns, temos um conceito muito similar em questões básicas de moral e crenças. Há muitos pontos em comum, a importância da religião para a vida pessoal e comunitária, a dignidade básica do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus, Deus como doador dos Dez Mandamentos, uma história de Salvação que começa com Abraão, Pai dos crentes. Não em vão, nossa base é a Bíblia, o Antigo Testamento, ou Tanak hebreu, está contido na Bíblia cristã. A Igreja sempre se considerou inserida no Antigo Israel. «Se a raiz é santa, também os ramos. Tu… foste enxertado e chegaste a ser partícipe com elas da raiz da seiva da oliva» (Rm 11, 16s).
–Como a Shoah influiu neste diálogo?
–Francisco Fontana: A Shoah foi determinante para que a cristandade restabelecesse sua relação com o Povo Judeu. O extermínio de seis milhões de judeus durante a II Guerra Mundial provocou que as igrejas cristãs se perguntassem por seu grau de responsabilidade em tamanha catástrofe, se um certo antijudaísmo cristão foi alvo de cultivo para a perseguição nazista.
A Igreja publicou um documento «Nós recordamos: uma reflexão sobre a Shoah». A Igreja Católica percebeu que Deus não rompe a Aliança com seu Povo – a Aliança nunca derrogada – como se disse muito acertadamente. Também a criação do moderno Estado de Israel, renascer um estado judeu, depois de quase 1.900 anos de estar dispersos entre as nações, é um fato excepcional e sem precedentes na história da Humanidade.
–Mudou, e em que, a visão do mundo judaico sobre Jesus Cristo e sobre a Igreja?
–Francisco Fontana: Muito lentamente, mas com certeza, o mundo judaico está mudando sua percepção da Igreja Católica. Foi fundamental a visita de João Paulo II a Israel e seu gesto de rezar no Muro das Lamentações, depositando ali uma belíssima oração, «Deus de nossos Pais, vós escolhestes Abraão e sua descendência, para levar vosso nome às nações. Nós estamos profundamente arrependidos pelo comportamento daqueles que no curso da história causaram sofrimento aos vossos filhos e pedimos vosso perdão. Nós desejamos uma autêntica fraternidade com o Povo da Aliança». Este foi um sinal muito importante aos olhos do povo judaico.
Por outro lado, o Judaísmo não tem uma autoridade centralizada como a figura do Papa na Igreja Católica; há muitas vozes e às vezes estas são discordantes, mas se publicou no ano 2002 um manifesto assinado por cerca de 150 rabinos «Dabru Emet» (falar a verdade) em que se reconhece a mudança efetuada pela Igreja Católica e se anima a todos a seguir neste caminho de reconciliação e colaboração entre judeus e cristãos.
–Mudou, e em que, a visão dos católicos sobre o mundo judaico?
–Francisco Fontana: Os católicos, ainda que muito lentamente, porque a Igreja Católica é muito grande e a mudança de rumo não pode ser brusca, também está mudando. Por parte da Hierarquia se publicaram vários documentos oficiais, em que se fixa a postura doutrinal da Igreja.
O principal é a Declaração do Concílio Vaticano II, «Nostra Aetate» e os documentos complementares «Orientações e sugestões para a aplicação da Declaração Conciliar Nostra Aetate» e «Notas da Comissão da Santa Sé para as relações com o Judaísmo». Com eles, a Igreja Católica fixa sua postura atual frente ao Povo Judeu. De fato, há uma Comissão Pontifícia para as relações com o Hebraísmo.
Mas uma coisa são os documentos oficiais e outra, a realidade até que chega aos fiéis; a mudança é muito lenta, mas já vai acontecendo, cada vez há mais interesse nos fiéis católicos de saber coisas dos judeus e de se relacionar-se bem com eles. Os católicos percebem que os judeus são um povo que reza, que se prende à sua fé, que mantém suas tradições, um exemplo nestes tempos de secularização. «Nossos irmãos mais velhos na fé» como disse João Paulo II.
–Em que ponto está o diálogo e quais são suas perspectivas?
–Francisco Fontana: No momento atual se quebrou o gelo, não há ambiente de hostilidade e sim há desejos de conhecer-se e inclusive de colaboração em temas pontuais. Há projetos de ajuda internacional a necessitados – Cáritas e instituições judaicas similares – em países da África, por exemplo.
Mas há metas por conseguir: referente ao diálogo judaico-cristão, não se entrou em um diálogo teológico em profundidade. Digamos que estamos na fase de saudar-nos e falar de temas que não produzam fricções. A figura de Jesus Cristo em seu significado para os cristãos é dificilmente abordável para os judeus, assim como o valor dos preceitos da Lei de Moisés para os cristãos.
Mas sim há temas sobre os quais se poderia dialogar: a Criação, a Queda, a Redenção, a figura do Messias e as interpretações próprias em cada religião, em que aspectos são comuns e em que diferem. Tudo isso é tarefa do futuro.

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