Autores vêm alertando para os efeitos da TV e internet na nova geração. Há os que criticam os pais por criarem uma geração sem compromisso com os valores do lar, da família, da tradição cultural local e do País. Outros, não poupam críticas à educação pós-moderna, tida como geradora de pessoas sem atitude crítica, individualistas, consumistas, desinteressadas pela leitura de livros e sem paixão para transformar o mundo.
As telas da TV, computador, celular fascinam os jovens. Mas, não quando o conteúdo os obriga a pensar. Umberto Eco vem alertando para o excesso de informações a que as crianças e os adolescentes têm acesso na rede e na TV faz com que eles percam a capacidade de buscar o que realmente é imprescindível para sua formação e vida.
Eles passam mais tempo jogando, trocando mensagens com os amigos virtuais, vendo mil imagens do que conversando com os pais e professores. Muitos pais se queixam da incomunicabilidade com os filhos hoje, embora vivam sob o mesmo teto.
O fascínio pelas telas gera uma linguagem neotelegráfica (correio eletrônico, celular), mas não uma nova ética de convivência. Nas tribos, os jovens se comunicam de modo cifrado. Tal comunicação se realiza em circuito narcísico, isto é, exclui os que não têm acesso à rede e aqueles que não acompanham o seu ritmo frenético e pensar raso.
Mark Bauerlein, professor da Universidade Emory, em Atlanta (EUA), lançou o livro “A Mais Burra das Gerações: Como a Era Digital Está Emburrecendo os Jovens…”, que alerta para o presente estar causando a morte da memória cultural. Atualmente, os jovens estão perdendo o memorizar uma simples lista de compras, não conseguem ler um livro inteiro e buscam resumos prontos, visando passar no vestibular.
Para o autor, a internet está sendo usada muito mais para banalidades do que para estudo ou pesquisa. Outro agravante: o jovem pula velozmente de galho em galho digital, numa hiperatividade em busca de informações que não contribuem para um conhecimento consistente.
A abundância de informações sobre o presente não permite que eles reflitam sobre o passado. “52% dos adolescentes americanos acham que a Alemanha foi aliada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial”. Estima que 80% deles não sabem que no Brasil se fala português.
Há também a “resistência de saber” sobre o fundamento das coisas e ao exercício de pensar a realidade. Os adolescentes hoje “vivem tentando arrebentar com a razão dos pais e dos professores”, diz o psicanalista Jorge Forbes. Há aqueles que inventam falsos argumentos para abandonar a escola ou negam o seu propósito para se dar bem na vida.
A professora deixou de ser um referencial para os jovens, sobretudo aqueles que querem ser como a atriz tal ou o jogador tal, porque o sucesso e riqueza parecem fruto do acaso e não de estudar.
Uma geração que ignora o valor do estudo, que não sabe ou se recusa a pensar pode ser massa de manobra dos totalitarismos de direita e de esquerda, sinalizou Hanna Arendt no pós 2ª Guerra. Situada “entre o passado e o futuro”a educação é imprescindível para que a civilização sobreviva. Bauerlein no seu estudo denuncia um fosso entre a geração nova de hoje e os pais, que é imprescindivel para a formação de sua personalidade.
O efeito do afastamento convivencial e comunicacional entre jovens e adultos pode estar gerando uma geração xucra, e pior: pronta para cometer atos de barbárie. Uma geração que não quer pensar, que vive fascinada pela realidade virtual e displicente para com a realidade dos acontecimentos é um perigo para a civilização.
Há jovens tão fascinados pelas imagens editoradas, que ficam decepcionados com paisagens “ao vivo”. Pior, eles podem chorar pela perda de uma celebridade que jamais viram ao vivo, mas podem ser insensíveis para com o seu ‘próximo’.
► Raymundo de Lima é Psicólogo, doutor de Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Universidade Estadual de Maringá (UEM)
Extraído do jornal “O Diário de Maringá” em 25/06/2008 - http://www.odiariomaringa.com.br/noticia/194527
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