Don Anuar
Maringá, 10 de de 2010

Rezar, pensar, mas não esquecer do Haiti

January 21st, 2010

Tocados pela triste e chocante realidade do povo Haitiano depois do inesperado e violento terremoto que não só destruiu a capital Porto Príncipe, mas matou milhares de seres humanos, entre eles a nossa querida Zilda Arns, o mundo todo tem demonstrado uma solidariedade impressionante, capaz de unir todas as nações no mesmo sentimento. Acabaram-se, ainda que momentaneamente, até as diferenças políticas de alguns países. Toda essa sensibilidade humana, que levou a inúmeras iniciativas, não pode acabar tão cedo.

O país, que já estava entre aqueles com a maior população vivendo abaixo do nível da pobreza, agora certamente nem classificação social possui. Mas se mantém vivo através das demonstrações de solidariedade que tentam reconstruir a parte material e, principalmente a dignidade do povo haitiano. Essa missão não será possível em dois ou três anos também para nós igreja latinoamericana. Por isso, a nossa ajuda não deve se resumir em uma coleta de fim de semana ou uma oferta minguada neste momento de comoção. Alguém pode dizer que nós devemos resolver os nossos problemas, mas, com certeza, neste momento, os nossos problemas não têm nem comparação com um desastre desta proporção. Precisamos nos mobilizar!

A cada dia, as notícias que chegam nos emocionam e despertam em nós o desejo de ajudar a resolver logo isso, para não mais ver as cenas de desespero diante da fome e da falta de perspectiva daqueles que sobreviveram a essa tragédia. Mesmo antes do terremoto, o Brasil já estava participando, junto com as Nações Unidas, de uma missão humanitária no Haiti para promover a paz naquele país, através do envio de pessoas, recursos materiais, ajuda médica e assistencial. E foi com esse propósito de oferecer meios concretos para salvar vidas, que a Dra. Zilda Arns, à frente da Pastoral da Criança, se motivou a visitar várias vezes o Haiti e ali aplicar sua experiência que deu certo no Brasil e em mais de 20 países da América e da África.

Movida pelo amor à vida e, de maneira especial, à vida dos mais necessitados, Dra. Zilda Arns era vista como a mártir dos miseráveis. A Pastoral da Criança é a ação mais concreta da opção pelos pobres, dizia Dom Geraldo Lírio, presidente da CNBB, na missa de corpo presente em Curitiba. Essa Pastoral, junto com a Pastoral da Pessoa Idosa, é hoje o testemunho vivo de quem nunca pensou em si mesma, nunca buscou prestígio, nunca quis os primeiros lugares, mas sempre pensou na defesa da vida, desde o ventre materno até a morte natural. Como dizia o seu irmão, o Cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, “morreu como viveu, servindo os mais pobres”.

Muitos não conheciam a verdadeira Dra. Zilda Arns. Sabíamos do seu trabalho, conhecíamos a sua garra, tínhamos nas mãos todos os anos as estatísticas que ela mesma distribuía nas Assembléias dos Bispos, mas não sabíamos da grandeza desta mulher e da importância que ela tinha no cenário nacional e internacional. Recebi um telefonema na semana passada dizendo: “Dom Anuar, essa mulher precisa ser beatificada”.

Certamente vai chegar a hora, mas independente disso, ela já é o modelo de vida e patrona de todas as líderes, voluntárias e voluntários, e das milhares de crianças salvas através da Pastoral da Criança. Ficam gravadas em nós as suas últimas palavras: “Como os pássaros que cuidam dos seus filhos ao fazer um ninho no alto das árvores e nas montanhas, longe dos predadores, das ameaças e dos perigos, e mais perto de Deus, devemos cuidar dos nossos filhos como um bem sagrado, promover o respeito a seus direitos e protegê-los”. Não nos esqueçamos do Haiti, muito menos de suas crianças!

Dom Anuar Battisti é arcebispo de Maringá

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Dom Anuar Battisti é Arcebispo Metropolitano de Maringá

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