Em várias ocasiões me perguntaram, se os bispos também fazem férias. Como criaturas humanas, sujeitos a todas as leis e limites humanos, precisamos também dar um tempo para refazer as forças físicas e espirituais. Cada qual se adapta às suas possibilidades e gostos pessoais. Pessoalmente, tenho o privilégio de curtir dez dias de férias com um grupo de bispos, com os quais partilhamos não só o mesmo ministério, mas também a mesma mística.
Esse grupo existe já há mais de vinte anos; eu entrei para fazer parte há onze anos, desde que fui ordenado como pastor da igreja em Toledo. Disse ser um privilégio, porque é diferente descansar sozinho, ou dentro de um grupo que apesar das diferenças, a começar pela idade, nos queremos bem.
Nós reservamos quinze dias por ano, e cada um se organiza para permanecer no local escolhido quantos dias desejar. Temos um lugar quase reservado em Vitória, Espírito Santo, na praia Ponta da Fruta, onde uma família hospeda padres, bispos, famílias, enfim uma pousada, simples agradável, à beira mar, cuidada pela simpática e sempre alegre Dona Lilia, que este ano completou oitenta anos.
Nos sentimos em casa, na simplicidade de família, sem cerimônia e muito menos protocolo, cada um tem o seu espaço e sua liberdade de ir e vir. Com a culinária da dona da casa, ajudada por Dona Carmen e Cidinha, duas mulheres alegres e serviçais, passamos os dias deliciando o cardápio capixaba, nordestino e até italiano na bela macarronada com frutos do mar. Na mesa não poderia faltar uma taça do bom vinho ou um copo de cerveja.
Nesse ambiente de amizade e descontração, o dia começa com aqueles que às seis horas já estão caminhando na praia para contemplar o nascer do sol, até aqueles que despertam às dez horas para o café da manhã. Como grupo estabelecemos dois horários comuns a todos, para que as férias fossem também momentos para abastecer a fé e enriquecer a experiência pessoal ouvindo as experiências dos outros.
Assim, no final da manhã, uma hora e meia de meditação e reflexão; no final da tarde troca de experiências e a Eucaristia. No dia a dia, não falta uma boa leitura, uma roda de chimarrão, mesmo para os nordestinos, uma canastrinha para quem gosta e até apresentação de mágicas apresentadas por Dom Hélio Rubert de Santa Maria.
Nestes dias tivemos a oportunidade de celebrar com a comunidade local, uma pequena comunidade, porém viva e dinâmica, que em uma bela noite vieram retribuir a nossa visita, com músicas e alguns petiscos. Também como peregrinos, fomos ao santuário de Nossa Senhora da Penha, lugar místico, primeiro santuário do Brasil, construído em 1530 e que passou por várias fases até o modelo atual. É conhecido como convento, pregado no topo de uma rocha a 600 metros de altura, do nível do mar.
É um lugar simples, pequeno, mas repleto de fé e esperança de inúmeros peregrinos que diariamente galgam lentamente os íngremes degraus para orar e depositar ali os seus pedidos e agradecimentos, nas mãos da mãe, Nossa Senhora da Penha, para que ela apresente a seu Filho Jesus. Nestes dias de férias e nestes ambientes, senti uma profunda integração entre o divino e o humano, fazendo de cada dia um respiro novo em busca de ser melhor para servir melhor o povo que Deus me confiou. Para mim, férias como estas, não posso perder, porque seria perder um pedaço do paraíso. Os Bispos também fazem férias.
Dom Anuar Battisti é arcebispo metropolitano de Maringá-PR

Estamos concluindo o primeiro mês do novo ano, iniciando o segundo em clima de quem curtiu férias, de quem viajou, passeou, e até de quem precisou continuar a lida diária sem muita folga. Tudo e sempre com o olhar no futuro, sem esquecer que temos os pés no momento presente. Assim, a palavra que não pode faltar em qualquer situação é o verbo “recomeçar”.