Don Anuar
Maringá, 18 de de 2010

EXISTE UMA DOR SEMELHANTE?

June 18th, 2009

EXISTE UMA DOR SEMELHANTE?

Como em outras ocasiões, acompanhei na semana passada, uma família que repentinamente, perdeu a primeira filhinha, a primeira neta, a primeira bisneta, de apenas sete meses. Uma experiência que corta o coração, por um sentimento que nenhuma razão humana pode explicar. Para os pais, que colhiam o fruto do amor cultivado há anos e viam a Laurinha que se tornava, cada dia, mais linda e alegre, que a cada momento se tornava a razão do viver, que não viam a hora para voltar do trabalho e poder brincar, rir, fazer careta, ter nos braços aquela criaturinha tão frágil, mas tremendamente carregada de afeto e alegria sem medida. Tudo terminou de repente. Inexplicavelmente ela dormiu e dormindo partiu para o paraíso. Como disse a avó: Deus queria ela pertinho dele e não de nós.
Com certeza, não é a primeira e nem será a última criança a deixar o lar, nestas ou em outras situações semelhantes. Diariamente, vemos fatos desta natureza, marcando por toda a vida uma distância infinita, deixando marcar de saudades que só o tempo pode curar, ficando para sempre uma cicatriz de boas e inesquecíveis lembranças. Um tempo que pode durar muito tempo, dependendo do tempo que se tem para encontrar em Deus a melhor saída. As dores e os sofrimentos, causados pela separação definitiva dos entes queridos, só encontrarão o verdadeiro analgésico, se depositados na cruz do Senhor, cuja vida verdadeira foi alcançada pela cruz assumida e carregada até o fim. Não existe outra solução para vencer as espadas de dor transpassadas no coração, a não ser aceitando-as como nossa e carregando-as com a força da fé no Senhor que também gritou: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste”?(MT 27,46) “Pai se for possível afasta de mim este cálice, porém não se faça a minha e sim a tua vontade”.(MT 26,39)
Na aceitação das cruzes que Deus nos coloca, em momentos totalmente inesperados, encontramos o caminho para ver mais longe e descobrir neste emaranhado de sentimentos, o rosto amoroso do Pai-Deus. Assim a vida não é um jogo onde só ganhamos, mas aprendemos a perder e perder pesado, a fim de encontrar o verdadeiro sentido da vida. Por isso, diz o nosso Mestre: “Quem quiser ser meu discípulo tome a sua cruz cada dia e siga-me”.(Lc 9,23). “pois o meu jugo é suave e meu peso é leve”(MT 11,30). Essa experiência eu vi, no rosto desta família, que mesmo chorando, lamentando, não se desesperaram em nenhum momento. Como é diferente, quando se vive na fé e pela fé. Como é diferente, quando se tem uma experiência de proximidade com Deus, cultivada na oração e na prática das palavras do Messias, Senhor e Rei de nossas vidas.
Assim, concluo com um pensamento de Madre Tereza de Calcutá: “Sempre tenhas presente que a pele enruga, o cabelo torna-se branco, os dias convertem-se em anos….mas o importante não muda: tua força e convicção não tem idade. Atrás de cada linha de chegada, há uma de partida. Atrás de cada sucesso, há outro desafio. Enquanto estiveres vivo, sente-te vivo. Se sentes falta do que fazias, volta a fazê-lo. Não vivas de fotos amareladas…Continua, ainda que todos esperem que abandones. Não deixe que oxide a fé que existe em ti. Faz com que, em vez de piedade, te tenham respeito. Quando não puderes mais correr, caminha. Quando não puderes mais caminhar, apóia-te em uma bengala. Mas nunca pare”.

Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá

Corpus Christi – 2009

June 11th, 2009

FESTA DO CORPO E SANGUE DE CRISTO
A Solenidade de “Corpus Christi” foi instituída pelo Papa Urbano IV com a Bula “Transiturus de hoc mundo” de 11 de agosto de 1264, para ser celebrada na quinta-feira após a Solenidade da Santíssima Trindade, que acontece no domingo depois de Pentecostes. Antes de se tornar Papa, Urbano IV foi o cônego Jacques Pantaleón, arcediago do Cabido Diocesano de Liège na Bélgica, que recebeu o segredo das visões da freira agostiniana, Juliana de Mont Cornillon, que exigiam uma festa da Eucaristia no Ano Litúrgico. A festa mundial de “Corpus Christi” foi decretada em 1264, 6 anos após a morte de irmã Juliana em 1258, com 66 anos. Santa Juliana de Mont Cornillon foi canonizada em 1599 pelo Papa Clemente VIII. Desde esta dada é celebrada a Solenidade do Corpo e Sangue do Senhor em todas as Igrejas. Em horários diversos, cada Igreja celebra a missa e em seguida a procissão com a hóstia consagrada naquela missa. O caminho pelas ruas da cidade ou quando não é possível dentro do próprio templo, significa que Jesus Eucarístico não está preso no sacrário e sim caminha conosco como “pão vivo descido do céu para a vida do mundo”. A Procissão nos faz recordar a caminhada do povo de Deus, que liberto da escravidão egípcia, vai ao encontro da terra prometida. Deus nunca abandona o seu povo, envia o seu Filho Jesus como caminho, verdade e vida, e ao mesmo tempo o seu Filho quis continuar no meio de nós como um sinal visível, sob as espécies de pão e de vinho. Na última ceia, quando se despede dos seus, deixa uma missão perene para aqueles e para os que depois deles continuariam a missão de evangelizar. Tendo nas mãos o pão e o vinho, depois de ter dado graças a Deus Pai, entregou aos seus discípulos dizendo: “Isto é o meu Corpo; isto é o meu Sangue. Fazei isto em memória de mim”. O sinal visível, comível, pão e vinho são transformados em corpo e sangue do Senhor. O mandato é perpétuo como foi perpétua a celebração da páscoa judaica. “Este dia será para vós um memorial, e o celebrareis como uma festa para o Senhor; nas vossas gerações a festejareis; é um decreto perpétuo”(Ex 12,1-14). Assim, Jesus no novo testamento transforma aquela festa, numa festa do seu corpo e do seu sangue dado e derramando para a remissão de todos. A memória agora não é mais da libertação do Egito e sim a libertação definitiva que Jesus realizou no mistério Pascal. Por isso a festa de “Corpus Christi” é uma atualização, um memorial que jamais passará. Não é um teatro onde se representa uma cena do passado e tudo fica como antes. Em cada missa se atualiza de forma real a presença de Jesus, na forma de pão e de vinho, sinais que nos levam a contemplar com os olhos da fé e adorar, porque é o mesmo Jesus, da Palestina, de Nazaré, de Belém. É “pão vivo descido céu; e quem comer deste pão viverá para sempre”. Então, a homenagem que fazemos hoje a Jesus, com tapetes, com cantos, com procissão é para manifestar nosso reconhecimento e nossa adoração. Ao mesmo tempo recordar que Jesus se fez e faz comida e bebida, alimento da caminhada. Nenhum povo tem um “Deus igual ao nosso Deus” capaz de se fazer um de nós e dar-se perpetuamente como alimento, a fim de proporcionar a todos nós as forças necessárias para construir aqui e agora um reinado de paz, de amor e de fraternidade. Essa graça que temos não é privilégio de alguns, ou oferecido a um único povo. O Pão da Vida é oferecido a todos, do presente do passado e do futuro. Por isso recordamos a frase do centurião que clama a Jesus a cura do seu filho: “Senhor eu não sou digno de que entreis em minha casa mas dizei uma só palavra e serei salvo”. Como diz João Paulo II na carta sobre a Eucaristia: “Nos sinais humildes do pão e do vinho transubstanciados no seu corpo e sangue, Cristo caminha conosco, como nossa força e nosso alimento, e torna-nos testemunhas de esperança para todos.”(EH 61)

A VIDA NÃO É UMA BALADA

June 3rd, 2009

A VIDA NÃO É UMA BALADA

O direito de se divertir e encontrar os amigos para algumas horas de distração juntos, nunca pode tirar, da consciência, o dever de cuidar-se e cuidar dos outros. Os encontros sempre foram uma oportunidade bonita de estreitar laços de amizade e construir relacionamentos verdadeiros. As baladas são uma oportunidade positiva, para quem tem a cabeça no lugar, assim outros ambientes sociais, e podem conduzir a uma verdadeira vivência dos valores da vida humana, como por exemplo a amizade, o respeito e a valorização do outro e da vida. Somos ou não somos corresponsáveis para criar um mundo melhor? Acreditamos ou não que a vida é presente de Deus e que deve ser preservada a todo custo?
Diante de tantos fatos de jovens se matando no trânsito, excedendo em bebida alcoólica, em drogas que afetam diretamente a consciência e o correto uso da razão; diante das reuniões exclusivas para determinados grupos sociais; diante da diversidade de opções que levam jovens ou adultos a viverem alienados em um mundo ilusório, acreditando serem felizes, pergunto: Quantas vidas foram e estão sendo ceifadas, a cada dia, por causa dos abusos e extravagâncias? Como convencer esta gente que pensa que a vida não vale nada? Como os pais podem ficar tranquilos em casa em um fim de semana, sem ver os filhos de volta? Quando e como voltam? Quantos não voltaram, senão em um carro funerário!
Como parte deste mundo imundo, não podemos estar de braços cruzados. Muitas iniciativas foram tomadas e estão sendo levadas a bom termo. Atitudes de repressão, como também de educação e de prevenção, são realizadas em todos os ambientes, com o objetivo de proporcionar qualidade de vida e favorecer a construção de uma sociedade cada vez mais solidária e segura. Além de todo o trabalho feito, a prevenção e a verdadeira educação vêm da família, onde, desde pequenos, aprendem a viver os limites da vida, onde aprendem o quanto vale cada coisa que usam, sabem de onde veio e quanto suor custou. Ao mesmo tempo, aprendem, com os pais, o caminho da igreja, do amor e o temor de Deus. Desde o colo materno e paterno os pequenos aprendem que a vida vale mais, que acima de tudo temos um Deus que nos ama e nos quer ver felizes, aqui e na eternidade.
Sem querer fazer dos filhos estátuas ou múmias sem sentimentos ou desejos, os pais devem, como missão, oferecer um caminho onde saibam valorizar o pouco, onde saibam viver na abundância e na carência, onde aprendam deste a tenra idade a orar e dobrar os joelhos, reconhecer que não estão sozinhos. Ninguém pode furtar-se a esse dever. É puro engano pensar: Vou deixar meus filhos crescerem e quando grande eles decidem o que querem seguir. A primeira escola, a primeira igreja, a primeira professora, o primeiro catequista é a sua casa, é o seu colo, é sua experiência de Deus. Quantos pais e mães, vazios de Deus, sem nenhuma experiência espiritual para apresentar aos filhos! Ninguém dá o que não tem. Com certeza, muitos deram tudo, menos o essencial. Com certeza, muitos não tinham nada e deram o que tinham: o amor e o carinho de quem acredita que a vida é dom de Deus Pai. Assim vamos contemplar um mundo, onde a morte não ocupa o primeiro lugar e nem nossas ruas ficarão manchadas de sangue de inocentes e de irresponsáveis que matam e morrem. A vida não é uma balada.
Dom Anuar Battisti
Arcebispo de Maringá

Dom Anuar Battisti é Arcebispo Metropolitano de Maringá

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