Blog D. Anuar Battisti

Arcebispo da Arquidiocese de Maringá

O MAIOR  “NÃO DESEJADO” DA HUMANIDADE
 
 Não precisamos ir muito longe para saber que a maior epidemia, que continua matando sem dó e piedade, chama-se o “não desejado”.Talvez não seja o meu e nem o seu caso, porém a vida continuará enfrentando as consequências de criaturas humanas vindas ao mundo sem serem desejadas.  Nestes dias, conversando com um jovem que estava numa profunda crise existencial, procurando saciar a sede de carinho e aconchego, passando até pelo desejo de tirar a vida, ficou claro que ele se sentia, na família, um estorvo. Ele dizia: eu não deveria ter nascido, fui indesejado desde a minha concepção.
  Essa experiência vem confirmar que, na maioria das vezes, a busca de satisfação através das drogas, do consumo exagerado de bebida alcoólica, de possuir um carro e nele colocar o som mais estridente possivel, a sede de velocidade transformado o veiculo em um instrumento de morte, tudo isso é a manifestação de um vazio existencial.  O vazio interior, a falta de sentido na vida, faz com que as coisas se tornem absolutas, pequenos deuses ocupando o altar da vida. Coisa é passageira, coisa é para ser usada e jogada fora, coisa é o descartável da vida. Os não desejados, na busca de matar a fome e a sede de amar e ser amado, acabam muitas vezes na marginalidade do caminho humano.
  Madre Teresa de Calcutá, a mulher que fez história, amando principalmente os indesejados, dizia:” A maior doença hoje não é a lepra ou a tuberculose; é antes o sentimento de não ser desejado. As vezes pensamos que a pobreza é apenas a fome, a nudez e desabrigo. A pobreza de não ser desejado, não ser amado e não ser cuidado é a maior pobreza. É preciso começar, em nossos lares, a oferecer o remédio para este tipo de pobreza”. Quantos lares poderiam ser melhores se não a existisse a mania de querer autonomia, independência, liberdade, prazer pelo prazer. A vida em um ambiente assim só cria pequenos monstros sem cabeça, sem coração, sem sentimentos de humanidade.
  “Não pense que o amor genuíno, tenha que ser extraordinário. Não pense que o amor, para ser verdadeiro, tenha que fazer todas as vontades do outro. Não pense que o amor, para ser genuíno, tenha que ter todas as liberdades. Não pense que o amor genuíno tenha que ter a primazia do gosto pessoal, a satisfação da vontade própria. O amor genuíno vem da prática dos pequenos gestos, dos momentos mágicos da vida, dos encontros com o outro gerando energia e gosto de viver. Acreditar nas pequenas coisas nos faz sentir a força de seguir amando. A capacidade de seguir vivendo, mesmo sendo indesejado, é buscar incansavelmente o Outro e Nele colocar toda nossa confiança.
  Quem sabe, os indesejados encontrarão a força para amar e serem amados, quando conhecerem, com o coração, a vida e o testemunho do maior indesejado da história do cristianismo. Banido, expulso da sociedade como bandido, condenado e crucificado numa cruz, assumindo a missão até o fim, suando sangue, suplicando ao Pai que, se fosse possível, afastasse dele aquela dor, aquele cálice de sofrimento e morte. Foi acreditando, até ao ápice do abandono de todos e de tudo. Acreditou sem ver, sem a mínima certeza de que a morte era apenas a passagem para uma vida de plenitude. Foi assim que Ele, o indesejado do mundo, conquistou a verdadeira vida para todos. Este é o mistério da vida. Jesus é o único capaz de preencher o vazio de tantos “não desejados” de hoje, que vivem sem perspectiva de uma vida melhor. Desejo que nesta Páscoa, os “não desejados” possam encontrar o maior indesejado da humanidade e preencher todo e qualquer vazio.

4 Comentários para “O MAIOR’NÃO DESEJADO’ DA HUMANIDADE”

  1. Puxa!!! este artigo de hj vem ao encontro de muitas situações;q presenciamos em nosso meio.E muito mais com o tema “Escolhe Pois a Vida”.
    pq em nosso meio existem muitos indesejados ,e nós leigos; nos trabalhos da Igreja temos muito q aprender
    como trabalhar em fraternidade com esses nossos irmãos…P mostrar-lhes realmente a face de Crito.
    Tenha um bom dia na Paz do Senhor.

    nilda

  2. Bello e chiaro l’articolo, anche se un poco triste perchè vero! Amare ed essere amati: è questo che conta, è questo che spesso manca.
    Un deferente saluto a Dom Anuar

    ETTORE INSELVINI

  3. Muito bonito e oportuno o artigo, principalmente nesta época de tanto desamor e desunião em grande número de famílias…infelizmente.
    Abraço,

    Ignez Augusti Perez Bonilha

  4. Muito clara e oportuna esta reflexão do arcebispo de Maringá. Toca ele no ponto essencial da nossa vida como gente e cristãos: amar e ser amado é a ânsia maior de todo coração humano, ainda mais para quem se sente idesejado! Chega em boa hora esta chamada quando estamos a celebrar mais uma semana santa em preparação à Páscoa do Senhor Jesus!
    Parabéns a dom Anuar!

    Irmão Hugo Mombach, fsc

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